Tiago
A visita estava feita. Espantados pela riqueza da Igreja de São Francisco, aquietados pela grandeza equilibrada da catedral, escandalizados com o arrasamento laicista da Sé, inebriados pela musicalidade surpreendente da Missa em Nossa Senhora do Rosário dos Negros e estarrecidos com a dimensão da cidade do século XVIII (que nos pareceu maior que Lisboa da altura), encaminhamo-nos com o cansado, despreocupado e saciado gozo turístico para o Elevador Lacerda, que liga a Cidade Alta à Cidade Baixa da cidade de Salvador da Baía de Todos os Santos, para pegarmos o carro alugado que ali tínhamos estacionado duas ou três horas atrás.
De repente sinto um pequeno encontrão, ouço um grito e vejo um miúdo a fugir. O pensamento é rápido nestas situações. Entre ficar no local para onde convergiram as pessoas ou correr atrás do ladrão. Optei por pedir para guardar o pequeno saco que tinha comigo e correr atrás do atacante. Durou pouco tempo a corrida apesar de me espantar a mim próprio pelo avanço que estava a conseguir ter face a um miúdo certamente apavorado. De facto, ao virar-me para trás para me assegurar que estava tudo a correr bem no local do crime, estatelei-me ao comprido na calçada e embora retomasse a perseguição fui rapidamente secundado e substituído por três ou quatro polícias que naqueles poucos segundos conseguiram reagir. Tivesse o mesmo acontecido em Portugal e pediriam para prestar declarações na esquadra mais próxima ou pura e simplesmente teriam dito que não estavam ali para isso mas para defender uma qualquer entrada de banco ou repartição.
A verdade é que nem tivemos tempo de ir embora uma vez certificados que não tinham conseguido levar nada. Em dois ou três minutos fomos informados que o miúdo tinha sido agarrado um quarteirão abaixo por outros polícias, que vindos do outro lado, conseguiram cercar o assaltante. Um estalo forte de um polícia escandalizou-nos mas uma faca grande encontrada no bolso e a necessidade de não desautorizar o fantástico trabalho policial acabou por determinar a nossa queixa junto da esquadra.
Mas a partir daqui tudo muda. O miúdo tem menos de quinze anos e é por isso que é utilizado pela máfia local para roubar os turistas. E porque é miúdo é logo acompanhado pelo irmão um ano mais velho que num gesto estupendo se entrega para o acompanhar declarando que estava de “olheiro” e que, portanto, também estava a participar no roubo. É a décima vez que o Tiago é apanhado e provavelmente continuará a sê-lo, a magoar pessoas e a magoar-se a ele próprio. Vivem com a mãe que trabalha como empregada doméstica e que é boa pessoa segundo a polícia. Mas o aliciamento das pequenas máfias que vemos retratadas no filme “A Cidade de Deus” acaba por afunilar o percurso destas crianças.
Que fazer? Tirei o terço do bolso e dei-o ao Tiago mas o meu espaço de manobra era também limitado e afunilado naquele contexto. Aliás, é naquele contexto que sentimos que o nosso espaço é muito limitado sem a intervenção de Nosso Senhor. É limitado para nós turistas e é limitado para os meninos de rua. Aquele chama-se Tiago e passou a ter nome. A esperança é que venha a ser São Tiago. O que sabemos é que, de acordo com o que vamos aprendendo, está mais perto de o ser do que nós.
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